sábado, 10 de junho de 2017

Eduardo Lourenço , homenageado em S. Pedro do Rio Seco, Agosto 2011

Abertura

Estamos aqui hoje reunidos para homenagear um conterrâneo nosso, o professor Eduardo Lourenço, o Dr Eduardo como sempre foi conhecido e tratado aqui em S. Pedro. Que nasceu aqui bem perto deste pavilhão, numa modesta casa de aldeia, e numa época bem diferente daquela em que hoje vivemos.
Foi no final do Verão passado que nos reunimos, eu próprio, o Manuel Alcino Fernandes , presidente da Junta de freguesia e o Dr Adriano Lourenço, e foi nessa reunião que nasceu a ideia desta homenagem.
Entendemos, nesse encontro, que este era o momento certo para evocar o Tempo de S. Pedro de Eduardo Lourenço. E, a Associação Rio Vivo, porque entendeu a importância do significado desta homenagem, assumiu-a como um dever, e ousou, com a sua pouca valia e os seus escassos recursos apadrinhá-la e apoiá-la.
A ideia inicial, era uma homenagem limitada ao âmbito da aldeia, mas logo ela extravasou alimentada pela grandeza e pelo prestígio do homenageado, e acabou por assumir uma dimensão nacional para a qual a Associação Rio Vivo não estava preparada nem dimensionada. Mas isso apenas mostra a grandeza do homenageado, que ao aceitar com a sua humildade este tributo quis mostrar o reconhecimento e apreço pela terra que o viu nascer. S. Pedro do Rio Seco é hoje uma aldeia orgulhosa por ter entre os seus filhos um dos maiores pensadores do nosso tempo...
Agradecimentos.
Em primeiro lugar à Camara Municipal de Almeida, que executou os trabalhos de preparação do local e contribuiu com a tenda onde decorrerá o o convívio, se prontificou a apoiar, na pessoa sdo seu Presidente , vereadores e e demais colaboradores.
a Junta de Freguesia de S. Pedro do Rio Seco, que oferece o lanche e, desde o primeiro momento, nela se empenhou na pessoa do seu Presidente da Junta. E a gente de S. Pedro associou-se na sua preparação.
Não posso deixar de referir as pessoas da Associação Rio Vivo, em particular o Jorge Carvalheira, o Zé e a Caetana, jovens que vieram repovoar s. Pedro e trazem consigo uma lufada de ar fresco e o sangue novo de que a aldeia tanto precisa. o Tó Pigas, e outros jovens e velhos.
E o Centro de Estudo ibéricos, cujo presidente honorário é Eduardo Lourenço, logo se associou assumindo um imenso trabalho na preparação e divulgação para que esta homenagem fosse possível. A exposição de textos e fotografias que está patente neste pavilhão, resultou de um trabalho conjunto do Dr Adriano Lourenço e dos técnicos do Centro de Estudos Ibéricos. Quero destacar o envolvimento activo e entusiástico do Dr António José de Almeida que aceitou ser o comissário desta homenagem, E o Dr Vergílio Bento a Dra Alexandra Isidro que coordenou todo o trabalho administrativo para que este evento se tornasse possível.

A presidir à Comissão de Honra está o Dr Guilherme d´Oliveira Martins, um amigo e um conhecdor da obra de Eduardo Lourenço, que logo e de forma entusiasmada aceitou o convite que eu próprio lhe dirigi . O facto de o ter aceite, muitos nos honrou, e por isso também lhe agradecemos Os restantes elementos da Comissão de Honra foram escolhidos e convidados por ele, alguns por sugestão do próprio homenageado . É uma lista de individualidades impressionante que integra pessoas notavéis, portuguesas e estrangeiras da literatura, da arte, da cultura, da politica, da vida pública que cruza diferentes sensibiliddaes, lista erssa que poderia integrar muitos outros nomes. Isto porque Eduardo Lourenço, e hoje um denominado comum do pensamento Universal, que se situa muito acima das posições de grupos.

Foi também o Dr Guilherme d´Oliveira Martins que sugeriu o prestigiado artista Leonel Moura, que de uma forma entusiasta se prontificou a projectar o monumento. E não posso esquecer o contributo do arquitecto Henrique Dinis da Gama, pessoa de apurado gosto, de rara sensibilidade , e de com um grande sentido estético e fino trato diplomático, ele também amigo do homenageado, e que com as suas ideias e sugestões contribuiu para melhorar o obra artística final.

A todos o nosso obrigado.

Aos presentes que vieram de longe oferecemos o que temos e o que podemos. Aceitem as nossas limitações e o desconforto e a precariedade dos nossos meios com espírito de sacrifício e entendam-no como um sinal da austeridade do tempo presente a que vamos ter de nos habituar

S.Pedro de outros tempos

Não me vou alongar nesta introdução, a tarde alonga-se e o tempo deve ser guardado para outros que mais e melhor ilustrarão esta sessão.

O tempo que hoje aqui evocamos é o tempo de S. Pedro de Eduardo Lourenço, o tempo de uma infância, aqueles anos, na expressão do homenageado, em que nós estamos no mundo e o mundo está em nós.

Se olharmos para esta aldeia o que vemos hoje não tem nada a ver com a aldeia dos anos 20 e 30 onde se inclui o tempo da infancia de Eduardo Lourenço.

S Pedro do Rio seco, é uma pequena aldeia do concelho de Almeida, situada na região de Ribacôa, um território que se situa entre o Rio Côa e a raia de Espanha.

Esta região de situa-se num planalto, continuação natural da Meseta Ibérica que lhe fica a leste. É limitada, do lado ocidental, pelos penhascos do vale do Côa, e a sul pela serra de Malcata, no maciço da cordilheira central ibérica. A norte, destaca-se a silhueta da Marofa, já nos contrafortes do vale do Douro.

São fracos os recursos destas terras: o solo é pobre, a água não é abundante, e o clima, muito frio no inverno e muito quente no verão, é extremamente agreste. Como nota dominante da paisagem, abundam os afloramentos graníticos (os barrocos como aqui lhe chamamos), as giestas, as moitas de carvalhos e as carrasqueiras. E, sempre presente, o pinheiro bravo.

Nos primórdios da nacionalidade, esta região fronteiriça, disputada entre Castela e Portugal, era uma zona de castelos defensivos: Castelo Bom, Almeida, Castelo Rodrigo, Vilar Maior e Alfaiates; terá sido mais intensamente povoada a partir de 1296, ano em que foi definitivamente integrada no território português, após o tratado de Alcanizes.

Tradicionalmente, as gentes desta região dedicavam-se sobretudo à agricultura e à pastorícia: colhia-se batata, trigo, centeio e algum vinho.
Produzia-se queijo de ovelha, cada família criava o seu porco e as suas galinhas, que circulavam livremente pelas ruas e regressavam aos poleiros na hora do crepusculo da tarde. Uma pedra colocada na entrada impedia investidas da zorra matreira que caso tivesse acesso ao galinheiro muitos estragos haveria de fazer. A aldeia era auto-suficiente em cereais, lenha, madeira, frutos e hortícolas. Havia uma dinâmica actividade complementar de serviços: o merceeiro, o taberneiro, o sapateiro, o alfaiate, o pedreiro, o ferreiro, o carpinteiro, o barbeiro...

A casa agrícola típica de S. Pedro desenvolvia-se à volta do curral com a residência e o seu cabanal, as cortes, os cortelhos, os palheiros, a adega e a “tenade” onde se guardava a lenha. O lavrador desenvolvia a sua actividade apoiado na junta de vacas, de machos ou de burros, conforme a dimensão da sua lavoura. O carro de bois, que era diferente do minhoto, estacionava no curral. Os terrenos da exploração agrícola (as sortes, as tapadas, os hortos, as vinhas, os lameiros) eram de pequena dimensão, e estavam dispersos pela folha, muitas vezes afastados uns dos outros .

Não havia conforto nas habitações: entrava-se no meio-da-casa e de um lado estava a cozinha (em certos casos de telha vã e sem chupão de fumo) com o seu basal e a cantareira, e com uma pequena dispensa onde estava a tulha e a salgadeira; do outro lado do meio-da- casa, uma pequena sala com dois quartos (as alcovas) onde apenas cabia a cama. Não havia casa de banho, apenas um lavatório na sala com o seu jarro e um espelho na parede. Nalguns casos, sobre a sala e as alcovas, havia o sobrado onde se guardavam as colheitas para o uso da casa.

Desde há meio século tudo isto mudou, e um modo de vida que se tinha aperfeiçoado durante seis séculos desapareceu completamente. A casa agrícola deu lugar a uma casa moderna com o conforto das casas das cidades, muitas vezes servindo apenas como segunda habitação. O automóvel tomou conta das ruas, os animais de trabalho desapareceram, o asfalto substituiu a terra batida, ou a calçada de pedras roladas, apareceu a electricidade e o saneamento, A autarquia, entretanto, construiu um moderno pavilhão multiusos, rasgou estradas, plantou árvores, embelezou largos com jardins.

Como resultado da fuga para as cidades, a população permanente que, no tempo da infância de Eduardo Lourenço, era de cerca de 700 pessoas reduziu-se a pouco mais de 150 habitantes, a maior parte com mais de 65 anos. A escola fechou por falta de alunos. Resta um pequena actividade agrícola, quase um passatempo dos reformados, centrada nas hortas de proximidade. Cuidar dos velhos no Centro Social é, agora, a principal actividade dos poucos que trabalham na aldeia. A folha está praticamente abandonada, sendo a excepção a existência pequenas manchas dispersas de exploração florestal (de pinheiros de cupressus ou azinheiras), e algumas explorações pecuárias (de vacas e ovelhas), tudo a viver com apoios comunitários.

No mês de Agosto a aldeia ganha a vitalidade de uma estância turística. Emigrantes enchem a terra, cria-se uma ilusão de vida. E alguns vêm nisto um sinal de progresso, e acreditam que se está a prosseguir no caminho certo.
Mas esta aldeia está ferida de morte e não tem futuro: os residentes desaparecem, e outros não vêem para os substituir; os filhos dos emigrantes não virão ocupar as casas que os pais construíram. Os dinheiros do estado social vão escassear, os fundos comunitários também. É este o angustiante paradoxo do nosso tempo: as cidades não são a solução para o futuro, e as pequenas comunidades rurais perderam a sua sustentabilidade.

Nascida da vontade de uns quantos, a Associação Rio Vivo foi criada para perceber como foi possível chegar a este ponto e para intervir, da forma possível, para inverter esta tendência depressiva. No fundo, para ajudar a cuidar dos velhos e estudar a forma de reanimar a aldeia. Para impedir que ela morra...

"Reunidos em S. Pedro do Rio Seco no dia 9 de Agosto de 2009, um grupo de gente de s. Pedro manifestam a intenção de constituir a Associação Rio Vivo. Através dela, e em pleno respeito pela Natureza e pelo uso racional dos seus recursos, propoem-se contribuir para preservar o património cultural, as formas de vida, as tradições, os usos e os costumes que herdaram dos seus ancestrais.

Declaram-se conscientes dos graves problemas que afectam o equilíbrio do planeta, e ameaçam pôr em causa a vida tal como a conhecemos: a poluição ambiental, o aquecimento global, as alterações climáticas dele resultantes, o rápido esgotamento de recursos naturais como a energia de origem fóssil, a terra arável, a água e outros. Estão preocupados com a extinção acelerada de espécies animais e vegetais, e com as ameaças que pairam sobre a diversidade biológica.

Num mundo globalizado, e particularmente na sociedade portuguesa, assistiu-se em poucos anos a uma rápida destruição dos modos de vida e dos equilíbrios tradicionais, sem que outros mais sustentáveis tivessem surgido. A fuga das populações rurais em busca de melhores condições de vida, e a sua concentração acelerada em subúrbios urbanos marcados pela precaridade, o desenraizamento e a fragilização, despovoou o interior e esvaziou as pequenas comunidades rurais.

Acreditam que as pequenas comunidades rurais poderão vir a desempenhar um papel importante no futuro e que é fundamental tomar consciência dos perigos que ameaçam a Humanidade, e das nefastas consequências do esgotado modelo do crescimento contínuo e do consumismo moderno. Crêem estar em vias de exaustão o privilégio histórico das energias fósseis baratas, que permitiu às gerações do último século um desenvolvimento e um conforto nunca experimentados. Acreditam que é seu dever deixar às gerações futuras um mundo habitável. E crêem ser fundamental reconstruir alguma da auto-sustentabilidade alimentar e energética das pequenas comunidades rurais.

Acreditam ser necessário desenvolver activamente um novo modo de vida, um modelo de transição para uma era pós-carbono. Tal desiderato deve ser perseguido no respeito pelas pessoas, com as suas crenças religiosas, as suas opções políticas e os seus direitos próprios. Mas abrir caminhos novos implica contrariar as actuais tendências e mudar as mentalidades.

Como primeiro passo para atingir os objectivos propostos, os signatários assumem conjuntamente o compromisso de constituir, em S. Pedro do Rio Seco, uma Associação de pessoas que comunguem dos mesmos ideais, e alimentem os mesmos propósitos.

Chegaremos a tempo?

A angústis do futuro

Naquele tempo do inicio do século passado, no tempo de S. Pedro de EL, os nossos avós imaginavam o mundo de hoje de de uma forma muio diferente daquela que ele veio a evoluir.
É certo que, nesses anos, a data "2000" era uma data mítica, a qual era vista, em simultâneo, como fim de século e como fim de milénio.

Isso, julgo eu, ajudava a inflamar as mentes. Ora, o tempo futuro parece sempre mais extenso do que o tempo passado. A nossa mente habitua-se a olhar para uma data futura como representando uma “distância” enorme, a qual, depois, nos parece muito mais curta do que havíamos imaginado. Quando apareceu o “1984” de Orwell ou o filme “2001, Odisseia no Espaço” de Kubrick, parecia que o tempo que faltava, haveria de permitir realizar todos os sonhos. E, afinal, essas datas, vistas agora pelo "retrovisor" do tempo, estavam “logo ali”.

Nas previsões desses anos, sobressai uma crença ilimitada na tecnologia. A electricidade é ali apresentada como uma coisa milagrosa. Falava-se ingenuamente de navios movidos a electricidade cruzando o oceano, como se a electricidade pudesse ser transportada a bordo de um navio. E, constatamos hoje, a incapacidade de, nesse tempo, se perceber aquilo que foram os verdadeiros grandes saltos tecnológico: a televisão, a informática, a internet, e até o avião.

O carvão era a forma energética que tinha revolucionado o mundo, tinha permitido o aparecimento do comboio e dos paquetes transocânicos, e tinha conduzido ao progresso e facilitado as grandes correntes migratórias, mas que já se apresentava como uma coisa do passado, algo sujo e desinteressante. E que, acreditava-se, a energia eléctrica iria tornar obsoleto. O petróleo era conhecido mas o seu potencial estava por adivinhar. E o nuclear como fonte de energia, nem sequer era imaginado.

Nos anos da viragem do século XIX para o século XX, o mundo ainda estava extasiado com os ecos da Exposição Universal de Paris, e vivia-se uma revolução tecnológica. Parecia não haver limites para os sonhos do homem. Júlio Verne, melhor que ninguém, encarna esta visão nos seus livros. Entre nós, ficou-nos a “Cidade e a Serras” do nosso Eça que confronta o “novo mundo”, isto é, a civilização com o campo, ou as serras. E que, ao arrepio da tendência dominante, toma partido pelo campo, e desaprova as “modernices” de Jacinto que morava em Paris, nos Campos Elísios, e já tinha elevador na sua casa.

Não se falava de limites do crescimento, e questões como o esgotamento dos recursos, como a poluição ou o aquecimento global, nem sequer eram afloradas. Falava-se do progresso, dum Mundo super-organizado mas não se antecipavam os custos da complexidade que lhe iriam estar associados.

O homem está hoje menos optimista, vive mais angustiado. E, já ninguém imagina o futuro como a “reconstrução” do Éden. Já não temos Júlio Verne, mas temos os livros e os filmes que nos falam do colapso (2012) e nos mostram as ruínas das grandes cidades depois de cataclismos, das pestes, do extermínio nuclear, de novas idades de gelo.

O mundo de hoje, ao invés do mundo de há 100 anos, é um mundo mais pessimista em relação ao futuro, e, infelizmente, parecem sobrar as razões para que o seja.

As previsões de há cem anos inspiravam-se na crença de que a evolução tecnológica e o progresso do conhecimento não teriam limites, e que ao desvendar os segredos das Ciências e ao dissecar as células microscópicas, o Homem iria explicar as origens da Vida, e penetrar nas profundezas da Alma. E adquirir a sapiência e o poder, que antes só eram atributos dos deuses.

Mas o mundo dos últimos 100 anos não teve aquela "suave" evolução que se esperava. Foi antes uma espiral de acontecimentos contraditórios, em que os sucessos eram, muitas vezes, submergidos pelos insucessos. Descobrimos a penicilina, é verdade, mas tivemos o holocausto, eliminámos a varíola, mas viu-se massacrar gente, em África e noutras partes do mundo. Produzimos e consumimos mais e andamos mais depressa, mas estamos, por causa disso, a esgotar os recursos e a destruir o ambiente.

Libertámos a energia do átomo , e com ela já se mataram pessoas; descobrimos o o código do ADN, e com esses conhecimento, já "manipulámos" genes de animais e plantas.

E quando parecia que estávamos a atingir o paraíso, vimos o planeta reagir furioso parecendo contrariar o nosso desejo. Surgiram, quando menos se esperava, os tornados, os furacões, as enchentes, os tsunamis e enfrentamos o aquecimento global. E o planeta até já se nega a que lhe retirem das suas entranhas o “sangue” negro que alimentou a nossa expansão, o “excremento do diabo” como alguns já lhe chamaram.

Por isso eu não me atrevo a fazer previsões para os próximos 100 anos. Já me contentaria que alguém mas mostrasse para os próximos 5 anos. Porque, acredito, muita coisa se irá decidir neste curto prazo. Mas só pensar naquilo que "não" poderá acontecer no século que temos pela frente, já se torna preocupante. E isso eu posso prever:

• A população “não” poderá voltar a multiplicar por quatro, como aconteceu nos últimos 100 anos.
• O aumento progressivo da concentração de CO2 na atmosfera “não” pode continuar.
• "Não" se podem continuar a destruir espécies como temos feito até agora.
• O consumo de energia fóssil, barata e abundante, “não” continuará a crescer.
• "Não" se poderão continuar a desperdiçar recursos escassos, a começar pela água.
• Os economistas “não” vão ser capazes de resolver os problemas económicos do mundo. Isto porque o mundo do futuro vai passar a ser dominado pela física e não pela economia

Não podemos prever o futuro das coisas
Elas são imprevisíveis!
A fronteira entre a ordem e o caos
É o bater das asas de uma borboleta...
A amena fogueira dá lugar ao incêndio devastador
A brisa suave dá lugar ao tornado assustador
A chuva serena dá lugar à enchente destruidora
E ao doce crepúsculo, segue o dia claro ou a noite de trevas...

Temos de, com urgência, procurar novas alternativas para continuar a assegurar prosperidade à raça humana. E se isso não for possível pela via material, terá de sê-lo pela via espiritual.

E com este pensamento, regressemos a Eduardo Lourenço que é a razão que aqui nos traz hoje...
A sua sabedoria, a vitalidade do seu pensamento, deverá ser um estimulo e uma bússola para encontrar a saída deste labirinto que já não é só de saudade, mas que parece começar a ser de sobrevivência… Será que ele nos saberá indicar o caminho?

Armando, irmão e amigo


Quando se convive de perto com uma pessoa, quando a vemos crescer e envelhecer ao nosso lado, a  vida dessa pessoa, de alguma forma,  passa a fazer parte de nós próprios. Por isso é, ao mesmo tempo, fácil e difícil  falar dela. Fácil, porque se conhece bem, mas difícil porque ficará sempre muita coisa por dizer.
 
O Armando é  um homem cheio de qualidades: é inteligente e observador perspicaz, tem um sentido muito crítico sobre as coisas e uma perceção única do meio envolvente. É um psicólogo nato. Retrata por vezes de forma acutilante e implacável - mas sempre tolerante e bem humorada -  as pessoas que o rodeiam.

Ele sabe partilhar como ninguém as suas experiências de vida, relata com um sentido de humor e com vivacidade e minúcia essas experiências. E eu, que sempre o ouço com interesse e com agrado, às vezes mesmo com entusiasmo, partilhei com ele muitas das suas vivências, e, sem sair da comodidade da minha casa,  participei do seu dia-a-dia,  e até fiz muitas viagens à sua custa.

Ainda adolescente, comecei a conhecer Portugal pelos olhos dele, e foi ele que me mostrou o mar pela primeira vez quando fomos,  com o Mendonça, fazer uma viagem pelo litoral, onde visitámos as praias os areais imensos que calcorreávamos descalços convencidos que íamos endurecer e calejar os pés para melhor enfrentar as frieiras dos duros invernos da Guarda.

Trabalhei com ele na loja "F. Gião" onde conheci o Sr. Nascimento,  para quem consertar um rádio não tinha segredos, o gerente Sr. Amílcar, algo enigmático, o Sr. Flores, que veio para o Sanatório da Guarda e se fixou na cidade, e o Chico que era um jovem aprendiz natural de uma aldeia sobranceira ao vale do Mondego.

Mais tarde, desembarcamos os dois em Cabinda nos batelões da tropa quando fomos, em missão de soberania,  ocupar o edifício abandonado de um velha missão junto à fronteira com o Congo Francês. Lembro-me bem do Belga, que vendia gasolina aos militares, e do padeiro que nos comprava farinha e nos vendia o pão. Comemos o Bife da Casa nas surtidas que fazíamos à cidade, e, juntos, deambulámos pelas praias de Landana. E numas férias, com mais dois amigos, percorremos, num carro alugado,  todo o litoral de Angola, de Luanda a Porto Alexandre.
 
Trabalhámos juntos no  Banco Lisboa & Açores , onde nos divertíamos com as histórias do velho Macedo que todos os dias ia ao Nicola comer o seu meio bife e já nem precisava pedir para ser servido, do Jaime, o da burra, que assim chamávamos por que tinha uma burra em Colares, e de um outro, o Vitor Manuel, que engraçou com o nome de um colega, e repetia à exaustão: "o mê amigo Lavadinho". E foi lá que conheci  a austera figura de Vitorino Vasconcelos Almada, que chefiava um departamento, e que um dia, para realçar a importância da sua pessoa, nos disse com ar solene: "Hoje fui almoçar com uma mescla de amigos, pessoas com quem vocês não contactam".
 
Fizemos outras viagens maravilhosas e inesquecíveis. Estivemos no terminus da estrada transamericana em Ushuaia, no extremo sul da Patagónia, nas margens do canal de Beagle; comtemplámos, deslumbrados, o espetáculo que é o glaciar  Perito Moreno, no parque dos glaciares, onde chegámos vindos de Calafate. E fomos visitar a Barranca del Cobre,  no México, onde viajámos no famoso comboio "El Chepe" de Los Mochis  para Chihuahua.  Fomos os primeiros portugueses a almoçar em Salta - cidade que fica no noroeste da Argentina -  num famoso restaurante onde o proprietário, Capeto Dias, cozinhou exclusivamente para nós e nos ofereceu do seu melhor vinho.

E poderia incluir neste roteiro outros países e outras emocionantes aventuras: Marrocos, a Dinamarca, a Turquia, a Rússia, etc... não esquecendo as incursões pelo Alentejo e por Trás os Montes. E nessas viagens não posso deixar de recordar a figura, tantas vezes presente, do saudoso Joaquim Pereira e da Orlanda, sua mulher.

Costuma-se dizer que escolhemos os amigos mas não escolhemos os irmãos. Eu não escolhi o Armando como irmão, mas escolhi-o como amigo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Alcides 4 - As esculturas

Comecei a arte de escultor já depois que me ter reformado. Quando atingi os sessenta e cinco anos, eu não tinha reforma nenhuma, não descontava nada. Os mestres antigamente não pagavam. Quem ia aprender é que tinha de pagar. Eu não paguei, mas aprendi a arte. Queria pagar para a reforma, porque eu pensava já no futuro. Pensava “agora, ainda posso trabalhar, mas quando chegar a velho, só os funcionários do estado é que têm as reformas.”. E eu quis pagar, mas não podia. Porque não trabalhava por conta de ninguém. Trabalhava por minha conta e não tinha direito a pagar. Quando eu soube, já tinha saído uma lei que era a lei dos independentes. Então, fui daqui à Guarda a tratar de me inscrever. Lá falei na Segurança Social, inscrevi-me. Paguei esses dois anos atrasados desde que já tinha saído a lei. E paguei o juro desse dinheiro que devia ter entrado. Com isso consegui uma reforma de trezentos euros por mês, que é o que agora recebo. Na altura até eram vinte e nove contos. Quando ainda eram contos. Ainda era em escudos. E então eram vinte e nove contos. Depois, daí para cá tem vindo a aumentar. Que eu agora recebo trezentos...euros. Agora, já é em euros.

Isto passou-se em noventa e seis, salvo erro. Tinha vontade de trabalhar. Ainda me sentia com força e nunca gostei de estar parado. E então agarrei numa peça aqui, noutra ali...Só foi imaginação, mais nada. E vontade de trabalhar. Tudo o que fazia no serviço, era sempre com paixão e com vontade de trabalhar.

Ocorreu-me a primeira ideia, quando me lembrei dos tempos em que estava solteiro que ia para a fonte, atrás das raparigas. Elas levavam o cântaro à cabeça e a gente ia atrás delas. Houve uma vez que até se partiram os cântaros. Lembrei o tempo de novo. Que a gente, não é como agora, que não entrava com as raparigas aí em qualquer lado, em cafés. Nem cafés havia. E então quando as apanhava é quando iam à fonte, encher o cântaro lá para baixo para o arrabalde. E a gente é que as acompanhava com um bocadinho de conversa. E ao domingo, quando ia à missa. À saída da missa. Não havia liberdades como agora. Que era para vir dar o passeiozinho com as raparigas pela rua de Almeida, para elas depois irem para casa. Só dávamos aquela voltinha. Não havia outra hipótese de andar com elas Ou ir vê-las quando elas iam com os cântaros à cabeça, quando iam à fonte, não é? E ficar a espreitá-las.Não eram só as garotas, as novas. Também iam as velhas. Precisavam de água e não havia água nas torneiras. Almeida só teve água canalizada em 1951. Em 1949, que eu fui à inspeção, estavam as ruas de Almeida abertas, para meter os canos. Mas tudo isto levou o seu tempo...um ano ou dois. E nessa altura, mais ou menos em cinquenta e um, é que Almeida teve água canalizada. Mas não era em todas as casas! Era só em quem a requeria.Porque depois...Há um que não meteu, depois tinha de pagar para lhe abrirem


As mulheres com o cantaro á cabeça Foi a ideia para a primeira peça que eu tenho ali. Desenhei-a, mas de modo diferente do desenho No papel é só uma frente. E na madeira é preciso desenhar quatro faces. É preciso desenhar a frente, as laterais e a retaguarda. Eu sabia trabalhar a madeira com os seus feitios, os revessos, o correr e os truques. E, claro,  alçar as ferramentas, as serras e tudo.  Eu não ia para uma obra sem trabalhar com as ferramentas. .. Mas muito tive que riscar. Imaginei as mulheres.

Cada peça era diferente. Há peças que levavam, por exemplo, um dia ou dois. Outras demorava quinze ou vinte dias. Era conforme a peça, o tamanho, o modelo, o desenho... Há peças... E o tronco com que vou fazê-las. Tenho lá algumas que eu me vi aflito, muito pesadas, para pôr em cima do banco. Porque eu tinha que as trabalhar em cima do banco. E para empinar os paus, com um tronco grande. Tinha de estar por cima do banco e depois podia trabalhar. E por cima do pau ia imaginando, ia cortando. O que havia de cortar, o que havia de fazer... E assim sucessivamente.
 Não importava qual era a madeira ou pensava “Para esta peça...eu quero este tipo de madeira

Era conforme as madeiras que tinha, mas que fossem boas, próprias para esculturas. Porque a madeira de pinho, que era o que nós utilizávamos mais antigamente, eu não utilizava para coisa nenhuma. Só para carpintaria... não presta.era madeira nacional. Era oliveira, o freixo, o negrilho...O salgueiro-branco ou vidoeiro que é uma planta que tem a casca como de prata, e é roxa. E até a folha é medicinal.


Eu pensava em fazer uma mulher, em madeira, que é na madeira que trabalho. Pensava em fazer uma mulher, conforme os trajes que usava. Porque se a senhora for a ver os que lá tenho, umas estão de avental, outras estão de xaile. Até lá as tenho com xailes de seda, com colares de pérolas. Também iam vaidosas à fonte! Não eram só as criadas, não é? Uma ou outra ia muito bem vestida. Lá as tenho ali. Imaginei e trabalhei o xaile, com as flores, o colar de pérolas, e assim sucessivamente. E para cada uma imaginava o feitio que havia de fazer. Outras de avental, com as mãos nos bolsos... Conforme lá estão feitas.

Fiz tudo com prazer. Não fazia trabalho nenhum que não fosse por prazer. Se não tivesse prazer numa ocasião, já me... Chateei-me. Estava a fazer uma. Tive o azar, parti-lhe um bocado. Não queria colar. Não queria peças coladas. Tudo o que lá está é tudo inteiriço. Agarrei no machado, escavaquei-a. Pronto, já não faço mais. Mas passado dez ou quinze minutos, já estava a arranjar outro pau a começar outra. Comecei outra de novo e não a estraguei. Eu lembrava-me de fazer conforme os trajes. As velhas de capa. Usavam umas capinhas, as velhas, com aquelas saias muito largas, que andavam por baixo dos joelhos. Também fiz as minissaias.

Também lá estão duas minissaias. Depois, mais tarde, já havia meninas já com minissaia. Depois, as outras compridas, com aqueles xailes pretos, com uma franja a arrastar.


Conforme me vinha à ideia, assim eu fazia as imagens, as esculturas. Faço qualquer coisa. Tenho é que imaginar primeiro. Antes de começar a trabalhar, tenho de saber o que vou fazer. E depois de saber o que vou fazer, tenho que olhar para uma peça de madeira e ver se dá para fazer aquilo que eu quero.

Fiz peças que não são parecidas com nada. Eram imaginadas. Imaginações que eu tinha e fazia a peça.Eu imaginava o que queria fazer. Então, com a ferramenta cortava onde queria, deixava a madeira mais grossa ou mais fina. Dava-lhe os feitios que queria. Com as ferramentas, faço tudo. É tudo inteiriço. É tudo esculpido na própria madeira. E depois era conforme o... Desenhava. Algumas, desenhava. E outras, no próprio momento que estava a fazer, é que imaginava e desenhava já na própria madeira. Porque a gente depois de saber trabalhar a madeira, tem que saber as voltas que lhe há-de dar, e como há-de cortar, e aonde... Tudo tem conforme o que a gente quer fazer. Aquilo tem um bocado de ciência e de imaginação. E vontade de trabalhar!

Porque eu a arte sabia-a bem. Sabia muito bem trabalhar. Que eu ainda estive uns anos sem trabalhar na madeira. Porque depois pus comércio, de vendas de mobílias e outras coisas. Mas não foi muito tempo, isso. Depois atingi a idade. Fiz a casa. Esta casa onde vivo. Fi-la eu toda, porque também trabalhava nas casas. Eu, o arremate, por exemplo, de uma casa era eu que fazia.
Sr. Alcides: Não, porque eu não sei dar valor a esta peças . As pessoas não sabem dar valor às peças que eu tenho. Tem lá peças de muito valor, que nem eu sei o valor delas.
Porque...vieram aí uns senhores... Não sei se já lhe contei. Aquelas peças grandes... E procuraram saber o valor delas. Eu disse “Não, eu não fiz isto para vender.”. Nem olhei ao tempo. Tanto me dava se estava oito dias, como quinze, como vinte. Começava a peça e tinha que a acabar. Não olhava ao tempo que estava a trabalhar.
Sr. Alcides: Ah, pois. Eu estava a fazer as coisas com gosto.
Sr. Alcides: Sentia alegria em fazer o trabalho. Ainda agora.
Sr. Alcides: Ainda agora. Olhe, pus uma peça no banco que ainda era para a fazer.

domingo, 26 de março de 2017

Alcides 3 - Militar e Bombeiro Voluntário

Aos dezassete anos, fui para bombeiro voluntário. Não havia lá garotos. O meu mestre, que era o Joaquim Valentim, foi fundador dos bombeiros em Almeida.. E tinha um filho que se chamava Manuel Valentim. Ele também trabalhava com o pai. Eu aprendi com os dois. Na oficina, trabalhavam os dois. Este Manuel Valentim propôs-me entrar para bombeiro, porque estava habituado comigo a andar nos telhados, como os gatos. E foi para ser agulheta, que era o caso dele, que andava por cima das paredes como anda um macaco, Como já estava habituado a trabalhar comigo, propôs-me. E fui aceite pela Direção dos Bombeiros. As admissões tinham de ir a reunião. Não é como agora. E cheguei a comandante, que eram só tenentes ou capitães, gente que não percebia nada de bombeiros. Era só o nome, e eles é que comandavam o batalhão. Mas eu acompanhava sempre os bombeiros. Eles estavam habituados comigo e quando iam para nomear outro, um tenente-coronel, que se chamava Matos, nomearam-me a mim. Foi uma surpresa que me fizeram. E eu, depois, aceitei. Estava lá metido. Fui bombeiro por amor à Humanidade. Não era a ganhar dinheiro. Estive lá 31 anos.

E aos vinte e dois anos, casei-me e fui para a tropa. Fui lá passar a lua-de-mel...Comecei a namorar a minha mulher no dia 17 de Abril. Eu tinha dezanove, vinte anos. Se formos fazer as contas, em trinta e nove, mais ou menos. Não, foi em quarenta e nove. Aprendi a vida, trabalhei, fui aumentando, fui ganhando. E aos dezanove anos, já tinha posto carpintaria por minha conta.

Na tropa tive uma especialidade difícil, mas que gostei muito dela, que era da TSF. Trabalhava com o Morse. Éramos noventa e tal a aprender. Ficámos seis apurados. Eu fiquei em primeiro lugar. Não falhei nada. Letra nenhuma. Gostei daquilo. Se eu mandasse - já disse isto muitas vezes-, não havia de haver homem nenhum que não fosse à tropa. Porque eu aprendi muito, muito, muito. Tirei lá o curso de ginástica especial. Quando para lá fui, pouco saltava. Um metro, um metro e pico, ou até menos.  E de lá depois fui para a ginástica especial. Fomos para Coimbra, para o Campo Pequeno, num concurso da Segunda Região Militar e ficámos em primeiro lugar, na ginástica. Fazia coisas que nunca me passou pela cabeça fazer. O meu corpo era borracha. Passados oito dias de andar na ginástica, eu parecia que tinha os ossos todos escangalhados. Tudo me doía. Quase nem podia andar. Passados três ou quatro dias, fazia o que queria do corpo. Vergava-o por todos os lados. E foram quatro meses de ginástica. E aprendi muito.

Ainda guardo o desenho do rádio com que trabalhei, que era o P-21. Era pesado. Era mais ou menos como uma televisão. Os outros pequeninos, de bolso, também usávamos, mas só atingiam onze quilómetros. Era como se fosse um telemóvel, só àquela distância. E aqueles, não. Aqueles já estavam fixos e já se comunicava para Coimbra e para vários lados.

Ora, entrei em Abril e saí em no ano seguinte, em Agosto. Foram dezasseis meses em que não trabalhei a madeira. Nesses meses vinha todas as semanas da Guarda para Almeida de bicicleta

Alcides 2- Aprender uma Arte

Acabada a escola, queriam que eu fosse a guardar ovelhas. Mas acho que o destino já estava marcado, e oitos dias depois de ter feito o exame da terceira classe fui aprender a arte de carpinteiro para a oficina do meu padrinho, o Sr Joaquim Valentim, que ficava à Rua Direita, na rua do Volta Atrás. Almeida era uma terra de muitos artistas, havia sapateiros e alfaiates, alguns com muitos empregados. Mas eu não gostava de ser alfaiate, porque era serviço de mulheres. Ficar ali com a agulha a coser, eu não gostava. E sapateiro também não, apesar de ter um irmão sapateiro. As botas cheiravam mal. Queria uma arte que eu gostasse que era a de carpinteiro e tive a sorte de o meu mestre ser meu padrinho de batismo. Considero mesmo que foi uma grande sorte porque havia muitos a querer aprender. E ele preferiu-me a mim porque era afilhado, apesar de já estar comprometido com outros. Foi Deus que me ajudou

O primeiro dia que entrei para a oficina  ia descalço. Não tinha dinheiro nem para sapatos, nem para comer. Naquele tempo, era preciso pagar para aprender. Eu não paguei porque o meu mestre era o meu padrinho de batismo e preferiu-me a mim por ser afilhado. E essa foi a minha sorte. Lembro-me bem da primeira lição que me deu, no dia em que fui aprender a arte. Foi o seu primeiro ensinamento. O que  ele me disse foi assim, nestes termos: “Olha, ó afilhado, vou-te dizer uma coisa. Tu és muito garoto. Nós entramos em muitas casas. Nunca me deixes em pouco”. Só me disse isto. Eu compreendi logo o que ele queria dizer. Que eu podia lá entrar em toda a parte...Porque a gente entrava em todas as casas de Almeida. Mas não podia tocar em nada. Mesmo sendo pobre, sem sapatos. O que estava lá dentro era tudo sagrado. Era como a sagrada escritura, ali não se pode mexer. Era como o sacrário.

Naquela oficina, durante três anos, aprendi a arte com muito gosto e prazer. E ia aprendendo à minha custa. O meu mestre, que era o meu padrinho de batismo, tinha lá uma cadeira com um pé partido, da parte da frente. Era uma cadeira de palha. E mandou-me fazer um pé. Eu já lá andava aí há três meses, mas só tinha aprendido a aguçar a ferramenta que foi a primeira coisa que ele me ensinou, E então deu-me a cadeira e disse-me:  “Olha, mete um pé a essa cadeira”. Eu lá arranjei um bocado de madeira e fiz o pé, só que saiu-me azar. Tinha tudo prontinho, com todo o trabalhinho feito à minha maneira. Mas fiz o pé igual ao que estava bom. E ele dizia: “Olha, os furos agora não batem certo. Faz outro pé”. Não me ensinou como deveria fazer. Disse-me apenas isto: “Faz outro!”. Tornei a fazer, tornei-me a enganar. Fiz o pé com tanto trabalho,  e tornava-me a ir para o outro lado. Então percebi que tinha de ser eu a resolver o assunto. Comecei a imaginar como é que havia de fazer para os furos não irem para o outro lado. E então, com a peça em bruto, pu-la no sítio e risquei-a antes de a trabalhar. E, a seguir, furei-a. Depois, trabalhei-a e ficou lá bem na cadeira. Foi assim que ele me ensinou. E foi assim que eu aprendi.

O difícil da arte é aprender a trabalhar. Porque depois de se saber trabalhar, nós é que temos de imaginar o serviço. E por vezes, os serviços é que nos ensinam. Que se é feito desta maneira ou daquela, conforme o serviço que estamos a fazer. Conforme o que precisávamos de fazer é que íamos estudar a maneira. É preciso saber um bocado de geometria, de matemática e de desenho. Desenhava muito. Não fazíamos aquilo assim à toa. Não se podia cortar um bocado de madeira sem estar marcada e riscada. E tinha a gente de saber preparar as ferramentas, que foi o primeiro serviço que me ensinaram a fazer…

Ainda me fez outra. Uma vez, debulhou-me este dedo. Ainda lá andava há pouco tempo. Era numa quinta. Andávamos no telhado. Ele andava em cima da trave. Eu ainda não subia lá para cima para as traves. Ainda andava na parede, que era mais seguro. Eu segurava o cabo na parede e eles estavam em cima. Eu ainda era garoto, sentia os pássaros ali atrás de mim. Em vez de estar a olhar para o trabalho que estava a fazer, pus-me a olhar para os pássaros. Ele viu-me distraído. Como quem diz... Em vez de eu estar com atenção ao que estava a fazer, botou cá para baixo para me assustar. O cabo apanha-me o dedo contra a pedra. Debulhou-o, quase deixou o osso à mostra. Sangrava. Diz ele “Olha, eu não era para te fazer esse serviço. Era só para tu não te tornares a distrair.” Nunca mais me distraí. Quando estava com o colega a trabalhar, tinha que estar com atenção ao trabalho. Mas, daquela vez, tive azar que me marcou o dedo todo. Era tudo ensinamentos.

Não paguei para aprender, mas também não ganhava nada. Andei três anos a trabalhar de graça. No dia que fez os três anos, o meu mestre pôs-me a ganhar três escudos por dia. Foi um alarde em Almeida, um garoto com catorze anos a ganhar três escudos! Um homem com uma enxada grande a cavar a terra de manhã, do nascer do sol a pôr, ganhava quatro e quinhentos, quero dizer, quatro escudos e cinquenta centavos. Eu ganhava já quase tanto como um homem pai de filhos. Como muitos. E viviam...Eu comecei a aprender nessa data e passado pouco tempo, um ano e tal, passou-me logo para seis escudos.

Na madeira, eu fazia tudo. Tudo o que tocasse em madeira, éramos nós que fazíamos.Da porta dos carros aos telhados. As casas só tinham as paredes de pedra. Tudo o resto éramos nós que fazíamos: os soalhos, os tetos, as portas, as janelas. Tudo o que era madeiras, era para carpintaria. Portanto, tinha muito que fazer. Eram trabalhos arriscados. Eu andava como os macacos, pendurado nos telhados. Ia com as ferramentas às costas e lá me segurava. Nessa altura fazia as portas, as janelas, fazia a carpintaria. E aos dezanove anos, eu já tinha carpintaria por minha conta. Era senhor absoluto. E então eu fazia o trabalho de carpinteiro que era para me governar. Para comer.


Alcides 1 -Infância


Nasci em Almeida, no dia 3 de Abril de 1929. Foi na Rua do Seixo, numa casa rasteira de telha vã que ficava pegada ao matadouro, em frente ao antigo Quartel de Cavalaria. Comparada com as casas de hoje não era maior que uma divisão pois não teria mais que 20 m2. Vivíamos nessa casa eu, a minha mãe, e mais dois irmãos. A minha mãe não tinha leite e eu fui criado numa teta emprestada por uma vizinha que tinha um filho da minha idade. Com o medo que me trocassem, a minha mãe marcou-me com um sinal. O meu pai que era primeiro sargento, morreu tinha eu sete meses. Ainda me lembro da minha avó paterna que se chamava Maria do Pereiro. Era aguadeira, trazia água para o quartel, quatro cântaros de cada vez. Era casada com o meu avô, Francisco do Pereiro. Naquela casa da Rua do Seixo me criei, e ali ali vivi até aos 8 anos. Depois mudei para outra casita junto à muralha.

Nos primeiros anos, a minha vida foi muito difícil. Mas eu considero que tive uma infância feliz pois vivia em liberdade. Andava descalço, e todos os dias tinha de preocupar-me em saber onde ia pedir um bocado de pão. Para nos criar, a minha mãe mondave, arranjava meias que se rompiam nas calcanheiras e nas biqueiras e vendia ovos. Ia buscá-los, a pé, a Chavelhas e ao Azinhal para os vender em Almeida. A nossa comida pouco variava: batatas, couve, carne nem vê-la.

Às vezes não deixava nada para comer e eu tinha que ir a uma casa qualquer a pedir. E ainda me aconteceu um caso. Um dia o professor estava a dar aulas e eu estava a pensar, ao meio-dia, onde é que havia de ir arranjar uma esmola. E não é que o professor viu-me distraído e disse assim: “Olhe, você está pensando em como ao meio-dia há-de ir pedir um bocado de pão.” E acertou no meu pensamento! Que era mesmo isso que eu estava a pensar. e pensava assim muitas vezes. Além disso, andava descalço e fazia frio. E ao meio-dia ainda tinha  o problema de saber aonde havia de ir comer.

A minha mãe era muito católica, rezava todos os dia o terço. Nesse tempo, nós tínhamos uma relação muito respeitosa com os mais velhos. À hora de deitar eu pedia a bênção à minha mãe: ─ Bote-me a sua bênção minha mãe. E acontecia o mesmo sempre que me cruzava com o meu padrinho: ─ Bote-me a sua bênção meu padrinho. E a resposta que obtinha era sempre a mesma: ─ Deus te abençoe meu filho. Um dia, aos seis anos, fui ao terço, deixei-me dormir e fiquei fechado na igreja. Assustei-me muito, pois imaginava os santos a vir a correr atrás de mim.

Frequentei a escola do professor Abel Pires. Fui para a escola aos sete anos, no dia 7 de Outubro no ano em que fiz sete anos. Fiz os anos em Abril e entrei em Outubro, que era quando abriam as aulas. Fiz a primeira, a segunda e fiz a terceira classe. Com exame! Não foi passagem...Era um exame mais ou menos como o da quarta classe, a mesma matéria, os mesmo os livros. Só que a quarta era mais aperfeiçoada. E então tive que deixar a escola, porque estudar mais já não podia. Não havia posses nem para os ricos. Pois os chamados ricos, não eram assim tão ricos para mandar os filhos a estudar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Prenda de Casamento


Uma história familiar que saiu da pena de um grande amigo e de um grande escritor, o Carvalheira

Maldita a hora e o dia em que te saltou da cama assim de madrugada, ó Reta! Bem melhor andaras tu… Foi assim que falou uma sibila vizinha, quando chegou à Mata de Lobos a sentença do tribunal de Figueira. Que o cabo João Moutinho já nem às despedidas o deixaram vir. O nevoeiro do rio foi o principal culpado.

Os homens do contrabando passavam a Espanha rebanhos inteiros, de Poiares, dos Urros, de Ligares. E até de muito mais longe, no planalto.

Desciam de madrugada a calçada de Alpajares, sempre com pastor à frente para manter iludidas as borregas e levá-las ao engano. Atrás vinham os passadores, uma tropa. Seguiam a ribeira do Mosteiro por veredas de há mil anos, amalhavam no escuro debaixo duns negrilhos logo que aparecia o Douro, o resto era trabalho do barqueiro. Era um rebuliço que durava a noite inteira. Toda a gente o sabia em Barca de Alva, chegaram ordens do administrador do concelho, só restava à guarda armar-lhes a esparrela e dar-lhes as boas-vindas. Haveria guardas locais de mãos untadas, quem o sabe?! E foi essa a má sorte do Moutinho, a quem veio a calhar descer da Mata à frente duma patrulha.

Maldita hora aquela! A barca abicava ali num varadouro, e os homens viram logo que os fariseus eram madrugadores. Já havia gado posto a bom recato debaixo das azinheiras. Mas quando a barca voltou, tudo foi precipitado. A patrulha soltou vozes de prisão na altura do desembarque. Inesperadamente um dos meliantes respondeu a tiro, tresmalhando os bichos todos pelo areal. O ladrão do nevoeiro fez o resto. Num capricho da aragem a cerração aumentou, quando o Moutinho disparou a sarrasqueta foi o barqueiro a cair. Mal se pode imaginar ali a babilónia. E, bem ou mal, degredaram-no para Angola.

 Meterem-no num porão ali na boca do Douro, numa manhã cinzenta, foi para a família toda uma calamidade. Mas a Maria Dolorosa Reta, com três ganapos na mão, tratou de engolir as lágrimas, farta ela de saber que a rodeira do destino anda para cima e para baixo. Enrijou-se nos costados e aguardou.

Quando em 1906 se pôs a caminho de Luanda para se juntar ao marido, também foi embarcar à foz do Douro. E levava pela mão a filha Laura, ainda uma criancita. Antes disso fez uma venda fantástica de quanto possuía em Riba-Côa. O mais eram courelas em S. Pedro, a dois passos da fortaleza de Almeida, já a fugir para Castela. Que a pena de João Moutinho não cobria a vida inteira, não era ainda a sentença da eternidade.

Fosse amiga a padroeira, a Virgem dos Bons Sucessos, e um dia lhe voltariam à mão. O Porfírio e o Laureano, ao tempo já espigadotes, lá tinham seguido a rota das aves de arribação. Custou-lhe os olhos da cara, mas lá foram.   O primeiro veio a fixar-se no Congo Belga. O segundo desceu Castela abaixo, cruzou a Estremadura, foi embarcar em Cádiz. Deu à costa na Argentina, foi encontrar melhores ventos em Santa Rosa, Las Pampas, onde gozou vida longa. Do outro lado do mar congraçou-se um dia Laura com Sebastião, funcionário da alfândega de Luanda. E se a comunhão de idades cauciona boas-venturas nos casamentos fidalgos, muito cedo se mostrou, neste correntio caso, que homem velho e mulher nova dão filhos até à cova. Bem depressa eram já três, e quem mais neles mandava era o compasso das luas.

E assim ficou, até ver. Oito anos cumpriu Moutinho a excomungada pena. Foi então a vez de Reta arrebanhar a família e tocá-la para S. Pedro, onde estavam à espera umas courelas. Mas não desandara ainda o alcatruz da fortuna.  A maldita pneumónica não poupou Sebastião. Mal tinha vinte e seis anos e já Laura era viúva. E agarrada às suas saias, a filha Aida, ainda uma criancita. Será dela que eu um dia hei-de nascer, quando me chegar a vez.

Por enquanto ainda é cedo. Porque agora vai casar-se o Laureano com a Maria Schneider, em Santa Rosa, Las Pampas. Em breve se fará dona a rapariga, e bem precisada vem, que tem só dezasseis anos. Mas é bonita e fecunda, conforme se verá, dando-lhe o tempo. É um fruto exótico dos alemães do Volga, uns teutões que entram aqui na história porque a Grande Catarina os levou a desbravar as estepes do Cáspio, há-de haver duzentos anos. Mas os atalhos da vida tresmalharam-nos, e o mundo não era ainda a pequenez que é hoje. Lá foram parar à América, ao Brasil… no nosso caso às Pampas da Argentina, para o Laureano encontrar a cama feita. Tão bem feita a cama estava, que nela fizeram ambos vinte e quatro filhos. E foi um neto deles a surpreender-me há tempos, embuçado nas névoas da Internet. Andava ele à procura de inculcas de S. Pedro.

Um bisneto do Moutinho, fruto cruzado da Mata de Lobos e das estepes do Volga, que o ladrão dum nevoeiro no Douro juntou em hora aziaga! Um dia destes, nas neblinas da Irlanda, vai ele casar-se em Belfast.

Já comprei um fato novo. E guardo ali, no saco de viagem, a prenda de casamento.

terça-feira, 15 de março de 2011

Maria de Fátima de Almeida Moutinho Borges

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Reabro este Blog para prestar homenegem e recordar a tia Fátima que faleceu na Guarda esta manhã.

Foi uma esposa e mãe de qualidades exepcionais. As suas mãos bordaram com arte e com carinho peças maravilhosas que ficam para lembrar a sua memória.

Guardo dela a imagem serena de amizade e de bondade. No meu primeiro ano de faculdade, recebia-me na sua casa, no Porto, e preparava umas refeições com um requinte inigualável. Nessa altura a família estava já completa: o Tio Elias , o Zé, o Américo, e o sogro, o tio António Borges que ela tratava e cuidava com grande carinho.

terça-feira, 20 de julho de 2010

José Queirós

Foi no Natal de 1983 que a Patrícia ofereceu um caderno de folhas brancas ao avô com esta dedicatória: “Ao avô José Luís. Para contar como foi a sua vida, dos pais, irmãos, e como era a vida em S. Pedro, em África e na Guarda. Beijinhos da Patrícia”. A ideia partiu da Fátima, e em boa a hora a teve, e também em boa hora pensou que era a altura para dar a conhecer a todos os familiares e amigos o conteúdo deste caderno que guardava há vinte anos.

No caderno escreveu José Queirós com a sua caligrafia desenvolta e elegante, a denunciar uma mente aberta e criativa. É uma escrita simples e informal, num tom coloquial que nós tão bem lhe conhecíamos. Eu e o Armando fixámos o texto: arrumámos aqui e acolá, fizemos a ligação quando as ideias apareciam mais soltas, e, nalguns casos, acrescentámos aquelas passagens que não foram escritas mas nos foram muitas vezes contadas, procurando sempre respeitar o estilo e a fidelidade das passagens da sua vida que mantemos na memória e apenas nos limitámos a reproduzir.

José Queirós representa bem o século XX onde se situa toda a sua vida. Nestes escritos ele confronta as mudanças ocorridas no mundo, e espanta-se com elas e, às vezes, não lhe percebe o sentido. Vê facilitismo nas mudanças, admira-se de se ir esbatendo a memória do tempos das dificuldades. O resultado são estes 18 belos quadros evocativos duma época, não muito distante, que muitos de nós ainda viveram. Tempo que é bom ter sempre presente para que os mais novos não o esqueçam.

José era o filho do meio e viveu como que encaixado entre dois irmãos com marcada personalidade: o mais velho António, por muitos considerado como um filósofo e pensador, e o mais novo, Luís, com uma capacidade dedutiva que rondava o brilhantismo, era admirado pelo sucesso dos projectos que empreendia. Talvez por isso ele exprima, por várias vezes, a necessidade de afirmar as suas capacidades, em que sobressai a sua visão universalista do mundo e das transformações por que passou durante a sua vida e, de uma forma talvez tímida, deixar a sua marca: “mas não fui dos piores”, “ lá consegui” , “não me saí mal”. E faz isso, não para marcar a diferença que nunca verbalizou, mas para se reafirmar à sua maneira

Vai o livro enriquecido com as ilustrações do neto Miguel, as quais recriam de forma bem original, pelos olhos de um jovem que já pertence ao mundo novo, as imagens suscitadas pelos textos. Ao Veiga que fez a revisão final dos textos, o nosso agradecimento.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Recordações (18)

A encerrar

Estou já a chegar ao fim do caderno, e fico com a impressão de que ainda falta muita coisa para contar. Escrever aqui trouxe-me à memória boas recordações, possivelmente a nossa memória guarda melhor as boas do que as más. Mas algumas das boas recordações eu omiti, porque já não as posso partilhar com quem comigo as viveu.

Vejo o mundo actual tão diferente daquele em que eu me criei que às vezes até me custa a acreditar como é possível haver tanta coisa para tanta gente. Na minha infância, nós aproveitávamos as coisas até ao limite: os fatos, as camisas, os sapatos nada se estragava, os restos de comida eram para os animais, as roupas velhas eram cortadas para fazer fios e tecer mantas. Nós não sabíamos o que era "lixo" porque nada se deitava fora.

O que antes era tão difícil de conseguir hoje parece tão fácil. E vejo muita gente a viver bem sem trabalhar, e não consigo perceber como conseguem. Os jovens de hoje têm a água quente a sair da torneira, o conforto de uma casa de banho, e poucos sabem o trabalho e as voltas que dá um grão de trigo antes de se transformar numa fatia de pão.

A necessidade da vida, a vida dos negócios, trouxeram-me muitos conhecimentos, e permitiram-me estabelecer relações com muitas as pessoas. Eu sempre gostei do diálogo, e dei-me com pessoas de todo o tipo: encontrei muita gente inteligente e boa, e esses, para mim, foram os mais tratáveis e menos desconfiados. Mas até com os menos evoluídos podemos aprender, e devemos saber tratar com eles, pois que todas as pessoas têm o seu valor.

Quando um dia partirmos desta vida, de cada um de nós ficarão as obras que fizermos, e sobretudo as que são de utilidade para todos. Quanto a mim, confesso, fui mais para projectos do que realizador.

Na nossa vida, chega um momento, em que as recordações já parecem contar mais do que o momento presente. Vou vivendo os dias que me faltam com essas lembranças e fico satisfeito quando os mais novos gostam de me ouvir contar como foi a minha vida.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Recordações (17)

Tempo da Guarda


Quando surgiu a possibilidade de trespassar uma taberna na Guarda, lá fui com a Aida, e um tal Manuel China, que conhecemos através do Zé Vitorino, e que nos levou à tal taberna. Que afinal era também casa de hóspedes e estava ali, no Largo dos Correios, onde paravam as camionetas todas, sítio de movimento. E logo se fez negócio, onde se gastou quase tudo o que tinha trazido de África, quase 45 contos.

Com muito trabalho, levantávamos logo cedo para acender o fogão de lenha com carqueja, faziam-se logo umas coisas para vender na taberna, bacalhau frito tínhamos sempre, porque havia muita gente a gostar, vendia-se bem, uma posta daquelas metida num molete e já não se ficava mal.

Às quartas e aos sábados tínhamos sempre mais freguesia, vinha aquela gente das terras ali perto, uns a tratar coisas na cidade e muitos vinham vender coisas à praça porque nesses dias era mercado. Na feira do S. João e do S. Francisco então era uma enchente, não tínhamos mãos a medir. Muitas vezes vinha nesses dias a Celeste do Zé Vitorino a ajudar na cozinha e dava bom jeito.

Penso que ali na Guarda, embora fossemos pessoas simples com poucos estudos, conquistámos uma certa posição. Muita gente nos estimava, eram os vizinhos gente com muita educação e pessoas estabelecidas na cidade que fomos conhecendo. O Pinto, da Casa de Utilidades, uma grande cabeça, homem muito sério que nos vendia louças e coisas que precisávamos, e que ia lá casa a dar injecções porque tinha sido enfermeiro. Falávamos de muita coisa, e começámos a ver que estávamos do mesmo lado quanto às ideias.

Com outras pessoas tinha um certo receio de falar, era aquele medo, mas quando foi em 1958 que o Humberto Delgado se candidatou a Presidente, muita gente se começou a abrir, até o António Cesteiro, que só lá ia beber um copo e quase nunca dizia nada, me confessou que tinha sido sempre do contra. Fomos muitos, ali ao largo do Hotel Turismo, ver o Humberto Delgado que subiu à varanda do hotel para falar ao povo, com o Dr. João Gomes sempre ao lado dele em todo lado, e depois foi uma bicha de carros até ao limite do distrito quando foi fazer campanha para Viseu, mas eu aí não fui.

Passados já tantos anos, a conclusão é que fizemos bem ir para a Guarda, muito trabalho, muitas canseiras, mas também uma vida farta sem grandes problemas. Os filhos foram crescendo, trabalhando e estudando e cada um acabou por tirar o plano à sua maneira para ter uma vida melhor que nós tivemos. Só fiquei com pena que nenhum deles se tivesse lançado na vida comercial, que foi uma coisa que eu sempre gostei.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Recordações (16)

O Regresso de África

Passada a aquela fase mais difícil do princípio, já alguns conhecimentos da vida comercial muitos adquiridos à minha custa, mas também de falar e de ver como faziam os que já lá estavam há mais tempo, e tinham singrado na vida, era altura de pensar no futuro... Com os conhecimentos que já tinha da vida comercial, e como tinha juntado um dinheirito, a minha ideia era lançar-me por conta própria e levar a família para junto de mim. Os filhos estavam a crescer, haviam de abrir os olhos, e logo cada um tiraria o seu plano.

Nós temos boas intenções, mas vida não é como a gente quer, e um dia comecei a sentir-me mal, aquelas febres de África começaram a deixar-me de rastos, e logo pensei o pior. Custou-me muito, mas tive que escrever uma carta à Aida a dizer-lhe que não estava bem. Não contei tudo, fui dizendo que era uma coisa passageira, mas tive que lhe dizer onde estava o meu dinheiro e o que devia fazer para o levantar se acontecesse o pior.

E lá tive de vir outra vez, de barco, muito abatido com a esperança de melhorar mas preocupado pois tinha que começar a vida outra vez de novo. Dessa vez o barco parou nas Canárias onde comprei alguma roupa para o frio pois não trazia nada, e comprei também uma camisola de lã azul para a Aida, lembro-me bem, que a usou durante muitos anos.

Chegado a Lisboa, foi o tempo de fazer as contas com o Madeira e Marques e apanhar o comboio para Vilar Formoso onde tinha na estação, à espera, os filhos com o padrinho Norberto, todos menos o mais pequeno. Eles tinham ido a pé, mas na volta para S. Pedro fomos num carro de aluguer do Augusto, que eu já conhecia.

Em S. Pedro toda a gente me vinha ver, porque tinha chegado de África, e porque estava ainda meio adoentado. Já não estava acostumado àquela vida da aldeia mas lá me fui ajeitando. Mas ficar ali não era vida, naqueles seis anos que estive fora pouco se alterou, o que se via é que muitos tinham partido, uns para África, outros para Lisboa e alguns daquelas terras começavam a partir, a salto, para a França à procura de melhor vida.

Dos filhos, três tinham a escola feita, cá se criaram só com a mãe e com a ajuda do Norberto e da Lucília que eram padrinhos de todos mas sempre os trataram como filhos deles. Ainda foi uma sorte que nós tivemos, muitas vezes nos ajudaram. Estávamos naquela de matutar o que fazer da vida e a conclusão era sempre que tínhamos que sair dali.

Recordações (15)

Seis anos longe da família

África para mim foi uma grande escola, pois eu não sabia o que era a vida comercial, e tive de aprender tudo a partir do zero. Eu tratava de tecidos, confecções, diversos, medicamentos, mantimentos, vinhos, vendia de tudo um pouco. O negócio era feito à base da tal permuta com produtos coloniais, tais como: óleo de palma, coconote, gergelim, chingola e até peles para casacos de um animal do campo, espécie de cabrito do mato, cuja carne é muito boa, e eu só comi uma vez, que me lembre.

Seis anos longe de casa é muito tempo. Nesses tempos não havia outra possibilidade de contactar à distância a não ser pelo correio. Nunca esqueci a minha família, tive sempre presentes as minhas responsabilidades, que não eram tão pequenas com seis pessoas a meu cargo. Às vezes lá recebia uma carta e uma foto, com os nomes dos filhos anotados, a lápis, por trás. Eu fixava longamente essas fotos e sentia um grande vazio dentro de mim, por não poder acompanhar o crescimento dos meus filhos.

Acho que muito se venceu e conseguiu com muito esforço e boa vontade. Esforcei-me sempre, e com grande vontade, para conseguir um bom relacionamento com todas as pessoas bem intencionadas de todas as classes e de todas as ideologias. Sentia que havia, em relação a certas pessoas, diferenças no aspecto social e económico, mas eu consegui sempre a forma comunicativa de me relacionar com elas. Lembro-me do Sr. Patacas e da esposa, e dos pic-nics que faziamos no campo, e de um tal Bicho que estava também sem a família, e que trabalhava no mesmo ramo que eu. E sempre todos me consideraram.

E se alguém não nos aceita tal como somos, é nessas alturas que melhor se ficam a conhecer os seres humanos. Vem ao de cima a sua maneira de ser, e a sua instrução e formação, e tornam-se mais evidentes os seus defeitos e as suas qualidades.

No Sumba, tive também de me relacionar com os naturais, fiquei a conhecer as suas crenças, os seus costumes e a sua maneira de ser, e às vezes impressionava-me a ingenuidade com que encaravam a vida e os seus problemas. Mas também com eles aprendi, e fiz amigos, e só tive pena de a minha cultura não ter sido suficiente para perceber melhor a deles.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Recordações (14)

África Minha

Mas a esperança mantinha-se e passados uns dias houve quem me dissesse: “Você tal dia vai para Santo António do Zaire”. E no dia indicado, lá embarquei numa camioneta da marca Comer, que era para ser entregue a um cliente do Norte de Angola.

As estradas eram as “picadas”, muito danificadas, e a viagem foi bastante acidentada devido às chuvas. A tal ponto as coisas se tornaram difíceis, que a certa altura tornou-se impossível prosseguir viagem, e o dito carro teve de voltar para Luanda. Eu então segui viagem, à boleia, até ao Zaire, mas antes ainda tive de me hospedar em Ambrizete, no hotel do Sr. Morais. Estava sem dinheiro, e a despesa foi paga pela firma Madeira e Marques. Despesa essa que mais tarde, me foi debitada, quando já estava a ganhar, e colocado na vida comercial.

Comércio esse que de princípio não percebia nada. E isto criava-me uma tal angústia que me provocava um grande desânimo. Julgo que se, nessa altura, tivesse dinheiro para custear a viagem, teria logo regressado, como fizeram tantos que eu conheci. Ainda cheguei a falar com alguém e pedir-lhe emprestado dinheiro para a passagem de regresso. Mas essa pessoa aconselhou-me bem, e fez-me ver que tinha desfeito a vida em Portugal e que tinha responsabilidades familiares, e que só tinha um caminho a seguir que era aguentar como os outros. E aí eu decidi aguentar mesmo a valer. Mas muitos deles eu vi sofrer naquelas terras, onde nem tudo era um mar de rosas.

Mais tarde convenci-me que eu não era dos piores e cheguei mesmo a gostar muito de África. Quando abandonei África, muitas coisas me deixaram saudades, aquela gente, aquele clima, as comidas sempre bem confeccionadas. E nunca esquecerei a Moamba, preparada à base de carne de galo ou pato cozinhada com óleo da palmeira. Era um prato de que toda a gente gostava.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Recordações (13)

Uma viagem por mar

Foi sempre uma aspiração minha sair da terra onde nasci, e essa vontade estava agora a realizar-se. Já estava em Lisboa, numa pensão perto do largo do Martim Moniz, e aquele movimento da praça da Figueira, ali perto, causava-me uma grande admiração, pela abundância de produtos à venda, e todo aquele buliço do mundo dos negócios.

E no final da tarde do dia 5 de Março de 1949, parti, no paquete Pátria, rumo a África. Largámos de Alcântara e logo passámos em frente à torre de Belém, única referência em monumentos, para mim que desconhecia Lisboa. E na margem direita, no crepúsculo daquele final de tarde, já começavam a aparecer os luzeiros das localidades que vão surgindo, a seguir a Lisboa. Quando passámos a última localidade, sei hoje que era Cascais, apenas o mar à nossa volta e um barulho compassado das máquinas, que me iria incomodar por largos dias.

Quando os últimos sinais de terra desapareciam, começava a grande aventura e eu já começava a sentir saudade dos que ficavam. Esta era a minha primeira viagem de barco, e tudo para mim era novidade. Éramos servidos numas grandes mesas, e ser assim servido era algo que me acontecia pela primeira vez na minha vida. No princípio, por não estar habituado, eu nem me ajeitava bem usar a faca e o garfo, ou a descascar a fruta com aquelas facas, mas ficava a olhar os outros para fazer como eles, e acho que não me comportei mal.

Com um fraco convívio com os outros passageiros, porque não os conhecia, lá fui eu naquele mar, um pouco solitário, e sempre a pensar naquilo que me esperava no destino. Ia viajando com tanto sacrifício por causa do enjoo, que desanimei ao ponto de desmaiar já sem forças, porque não comi nada em 48 horas.

Fizemos a primeira escala no Funchal, terra que me deslumbrou pela sua beleza natural, as casas dispostas ao subir da encosta faziam lembrar um presépio. Mas eu não tinha tempo para apreciar estas belezas, e só pensava nos que tinham ficado, e no que viria depois. Em S. Tomé ficámos ancorados ao largo, e vinham grandes barcaças cheias dos naturais da Ilha que encostavam ao barco, para receber e deixar grandes fardos de mercadorias, tudo numa grande azáfama. Eu ficava a olhar aquele espectáculo, e tudo era novo para mim.

E numa manhã de neblina, com muito calor, fomos informados de que estávamos a chegar a Luanda, e iríamos desembarcar naquela tarde.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Recordações (12)

Emigrar!


Como as despesas a aumentar, comecei a ver que não ia ser fácil aguentar o barco, e fui pensando em emigrar para África. Este era o caminho que muitos escolhiam. Havia muitos que saíam, e o meu irmão Luís, terminado o serviço militar, já tinha emigrado para Moçambique, e isso serviu para aguçar ainda mais o meu desejo de fazer o mesmo. Mas era preciso a tal "carta de chamada" sem a qual não era autorizada a saída para África.

Aida acarinhava a ideia, animava-me e incentivava-me. A oportunidade surgiu através de uma prima sua, irmã do Augusto Cavaleiro da Mata de Lobos, que estava casada com um tal Aníbal Madeira, homem que tinha grandes negócios em Angola, e era sócio de uma tal firma Madeira e Marques com sede em Luanda.

Falou-se com aquela gente, e lá chegou a carta de chamada. Depois trataram-se os papéis e aprazou-se o dia da partida. Na noite anterior praticamente não dormi. Saí de casa e deambulei pelas ruas, interrogando-me se não seria essa a última noite que passeava na aldeia. Fui ao palheiro acendi uma candeia que eu próprio tinha improvisado com uma torcida de pano mergulhada num frasco de "Ceregumil". E, como se estivesse a despedir-me, olhei para os magros pertences da lavoura, e para o porco que era toda a riqueza de animais que nos restava.

A mala levava coisa pouca e já estava preparada: uma fatiota, umas mudas de roupa interior, umas camisas, e pouco mais. Numa taleiga de pano, já Aida tinha preparado e arrumado a merenda à base de pão, queijo, umas chouriças, e uma garrafa de vinho. Nem ao menos uma fotografia de Aida e das crianças para lembrança. Naqueles tempos, não se tinha possibilidade de ter estas coisas.

No manhã do dia seguinte, juntou-se um grupo de pessoas à nossa porta, e lá fomos formando um procissão até à Nave, que fica no limite da povoação. Aí fizeram-se as despedidas da mulher e dos filhos. E montado na burra preta da minha mãe, lá fui eu e uns quantos (que haveriam de voltar para S. Pedro com a burra!), a caminho de Vilar Formoso onde iria apanhar o comboio para Lisboa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Recordações (11)

Serões na província

Quando somos novos sentimos uma grande ansiedade, e um enorme desejo de ser adulto para nos tornarmos iguais aos homens e mulheres que nos rodeiam. E, duma forma natural, sentimos que somos incompletos se não encontramos a mulher que nos complete.

Na minha juventude não havia muitas liberdades de relacionamento com raparigas, mas nós não ficávamos indiferentes, e tudo fazíamos para ficar perto delas, sempre que havia oportunidade para isso. Para os jovens o tempo mais alegre era o tempo que passávamos nos bailes, animados pelos tocadores da concertina ou da guitarra. Claro que, na forma de aboradar as raparigas, não se permitiam avanços, tudo tinha de ser feitos com as normas que respeitassem as tradições dos mais velhos.

Havia o baile mandado,onde todos participavam, e um dava as ordens, "passa por baixo", "passa por cima", "todos ao centro", "troca de pares", "esta não é minha", tudo com muito ritmo e muita alegria. E havia as danças com os pares agarrados, e nós íamos convidar as raparigas, que muitas vezes estavam com as mães, mas nem sempre elas aceitavam dançar connosco.

E havia os tais “serões” em que nas longas noites de inverno nós íamos para um palheiro, e lá nos aconchegávamos todas na palha. Estávamos deitados à luz de uma candeia a petróleo, cujo consumo era dividido por todos, porque todos o frequentávamos. Havia rapazes e raparigas, contavam-se histórias, cantava-se e tocava-se guitarra. Mas tudo tinha de ser feito sob o olhar atento de algumas mulheres mais velhas que estavam ali como que a guardar as mais novas, e evitar que algum rapaz tivesse alguma atitude mais atrevida.

As meninas trabalhavam a fazer meia, na renda e outras a fiar os linhos. Os rapazes, deitados na palha a fingir que dormiam, às vezes iam-se encostando às raparigas, às vezes, roçando as mãos pelas mãos delas, elas fingiam que não percebiam, mas, se “calhavam” com aquele rapaz, davam sinais de corresponder. E trocavam-se olhares furtivos, que as mulheres mais velhas se apercebiam, mas nada diziam, porque aquilo era a lei da vida.

E era ali que muitas vezes se “fabricavam” os casamentos, mas eu confesso não foi o meu caso. Apesar de todas as dificuldades que tive de enfrentar, e já aqui relatei algumas, eu tenho boas recordações do tempo da juventude, que era uma vida bonita e alegre.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Recordações (10)

Tudo o vento levou

Já contei, atrás, os acontecimentos relacionados com a ida falhada do meu irmão António para o Brasil, e de como isso mudou a vida da nossa família, na casa de meus pais. Lembro-me bem, aquilo foi como se um tornado tivesse passado, como se o ventou tudo tivesse levado. Como se pode concluir, a minha vida, nos meus princípios, vividos em casa dos meus pais, não foi fácil nem risonha. Mas foi também uma lição que eu aprendi para a vida, esta de ficar a saber de que não podemos tomar nada como certo nem definitivo, de que a desgraça pode chegar a qualquer momento, sem avisar e quando menos se espera.

Éramos três irmãos, e fui eu o primeiro que casei. Comecei, após o casamento, uma vida nova com poucos recursos, e sem nenhuns auxílios. Recordo-me da grande luta que tive de travar para vencer, para não cair na lama, e para conseguir o pão necessário para cada dia . Tive de aprender de tudo um pouco, agricultura, barbeiro, sapateiro, pedreiro, carpinteiro, tudo trabalhos sem horário de trabalho e sem descanso semanal. Férias nem pensar nisso, e, mesmo assim, conseguimos uma situação económica equilibrada.

Uma das coisas que eu fazia, nesses primeiros anos, era matar, de vez em quando, uma rês, um cabrito, um borrego ou uma ovelha para vender a carne. Com isso fazia algum dinheiro que dava para pagar o custo do animal, e sempre se aproveitavam aquelas partes menos vendáveis da peça, que nós comíamos em casa. Eu gostava de esfolar, tirar as peles, separar as partes, e usava sempre uma faca boa e muito bem afiada numa pedra de esmeril. Certa vez fui comprar um borrego ao mercado de Figueira, e tive de o trazer até S. Pedro, pela arreata, coisa aí para uns 20 Kms de distância. Não sei quem se cansou mais, se eu ou o animal, mas quando chegamos a S. Pedro ele pesaria uns quilos a menos, e, assim, lá se foi parte do lucro.

Enfim, tinha assumido a grande responsabilidade de ser chefe de família que custa mais que ser solteirão. E não podia dar parte de fraco!. Dentro em pouco tempo 1 filho, isso repetiu-se mais vezes até ao número de quatro filhos…

terça-feira, 22 de junho de 2010

Recordações (9)

Tempos da Guerra

José Queirós, conta-nos histórias da sua vida, e fala de tempos de vacas magras


Nos anos da década de 30, viveram-se em S. Pedro tempos difíceis, e que foram agravados pela Guerra Civil de Espanha. Parece-me que a miséria ainda se tornou mais miserável, nesses anos. Nós sabíamos que se defrontavam duas ideologias distintas, e éramos obrigados a tomar posição, havia os falangistas e os "rojos", ou vermelhos. O Bernardo Limão, nosso vizinho, estava casado com a Concha, uma espanhola, e viviam em Espanha. Um dia voltaram para S. Pedro e trouxeram com eles a experiência dos dias de Madrid e das lutas dos sindicatos. E nós ouvíamos, embasbacados, as histórias que nos contavam, e logo acreditámos que aquele era o lado certo.

A maioria do povo da aldeia seguia a orientação religiosa do padre Raimundo, era favorável aos falangistas. No nosso bairro, por influência do Bernardo Limão, uns quantos de nós nutríamos uma maior simpatia pelos vermelhos. Tínhamos uma grande fé de que o mundo tinha de mudar, que tinha de haver mais igualdade, mais solidariedade, e que as crenças antigas tinham de dar lugar a uma nova ideologia. Em certos dias vinha um indivíduo de Nave de Haver, o Nabais, que nos trazia um jornal clandestino, e que nos falava do "homem novo", e de países onde havia terra para todos, onde havia pão e paz.

Mas, na aldeia, vivia-se um clima de medo e desconfiança; nós éramos apontados a dedo, e, à boca pequena, diziam que nós éramos os vermelhos. As notícias que chegavam do resultado da refrega eram vividas com a exaltação das vitórias, ou com o agrume das derrotas. O padre Raimundo, muito confiante do desfecho da guerra, ia, de binóculos, para o alto de Carcidade para ver os bombardeamentos com que os falangistas, dizia-se, arrasavam a cidade de Madrid. E nós víamos passar grandes filas de camionetas que se dirigiam, pela estrada velha entre Fuentes e Alameda, para Ciudad Rodrigo, e transportavam o apoio que Portugal enviava para os falangistas.

Depois, um dia, chegou a notícia de que a guerra tinha acabado, e nós percebemos que o tal mundo novo ainda vinha longe. Mas logo chegaram novas notícias que diziam que a Inglaterra a França e a Alemanha já começavam outra guerra.

E na Casa da Varanda, um após outro, nasciam os filhos, e aumentavam as bocas que era preciso alimentar. E os meios escasseavam.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Recordaçoes (8)

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Pai Relaxado

Na nossa casa, quem tinha que aguentar o barco era eu, o irmão António e a nossa mãe. O nosso pai Francisco, depois de duas viagens à Argentina regressou mais pobre do que tinha ido. Da última vez que regressou, vinha tão roto que esperou que anoitecesse para entrar na povoação, tal era a vergonha que sentia se o vissem com o aspecto andrajoso que trazia. Nos anos seguintes, Francisco passava o tempo dedicado à missão de beber e fumar, e mais nada. Até que fabricou uma cirrose cujas consequências lhe causaram a morte.

Em vida foi sempre chefe de família, sem dúvida, mas era só para vender os valores móveis e para gastar o dinheiro mal gasto. Vivíamos uma vida sempre em guerras. Francisco era um homem de feitio difícil. Eu creio que ele era um desadaptado. Deambulava pelo povo com um casaco muito coçado, azul, de surrobeco, as botas sempre com os atacadores desapertados. Conversava, filosofava e dava-se bem com toda a gente. Mas, em casa, infernizava a vida da nossa mãe, chegava a bater-lhe. E estava sempre a implicar com o António. Um dia atirou-lhe com um caçoilo e feriu-o na testa. A nossa mãe tudo aguentava. O filho mais novo, o Luís, que fazia uma grande diferença dos outros irmãos era o seu preferido, e tinha para com ele atenções especiais. Até chegou a comprar-lhe uma guitarra.

O António, talvez por ser o mais velho, foi o mais sacrificado. Quis emigrar para o Brasil mas as coisas correram mal. Quatro meses depois de partir regressou a casa, doente e derrotado. Não passou de Santos onde uma doença pulmonar o atingiu, e o obrigou a retornar. Para a casa agrícola, este insucesso, foi um rombo desastroso. Aquela ida abortada custou 9 mil escudos, e para a suportar tivemos de vender três propriedades boas perto do povo, e as vacas de trabalho. E até vendemos a porca que tínhamos cevado para a matança, e que pesava 140 quilos.

Quando casei, a relação do meu pai comigo mudou bastante: quando ia a minha casa era bem recebido e obsequiado pela Aida, e o entendimento começou a ser outro.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Recordações (7)


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José Queirós continua a escrever as sua memórias (capitulo 7)...

Mocidade, que saudade...



Na minha infância gostava muito de ler livros, revistas e jornais. E já jovem adulto, apesar de todos os revezes na minha vida e das dificuldades que tinha de passar, eu cheguei a assinar “O Primeiro de Janeiro”. Recebia-o todos os dias pelo correio e muitas vezes tinha de escondê-lo das outras pessoas da aldeia, que achavam isso muito estranho, e que criticavam as pessoas que liam e a quem chamavam, com desprezo de "doutores". Havia como que inconscientemente uma atitude que repudiava a inovação, a mudança, o progresso. Tudo o que se desviasse do ritmo da vida, tudo o que viesse alterar aqueles costumes antigos, era criticado, às vezes de forma mordaz, ou acintosa. E que nos magoava muito, pois nos levava a excluir-nos e a sentirmos-nos um pouco como “marginais”.

Mas isso não significa que não houvesse coisas boas. Hábitos e práticas que se perderam e que ainda hoje recordo com saudade. Os jogos da adolescência que eram uma mostra de força e virilidade como, por exemplo, o jogo do ferro. E havia o jogo do “Bete” em que um jogador lançava uma bola de pau para ser “batida”, com um pau ou bastão, por outro jogador (que estava dentro de um circulo ou “ring”) . Este jogador, enquanto a bola pairava no ar, corria pelas balizas dispotas, em duas fileiras, à volta do campo. Os adversários procuravam apanhar a bola ainda no ar (às vezes usando um chapéu ou uma gorra basca), e devolviam-na à base. Logo que a bola “riscasse” o “ring”, o corredor tinha de se imobilizar numa baliza. Era um jogo de equipas, duro e tinha alguns riscos. Por ter sido atingido com uma bola, morreu anos mais tarde, na sequência disso, o Carlos, um filho da Ti Miquelina Forneira.

Gritar Ó barro…ó barro… era a forma de chamamento lançado da “Lancha do Forte” para se juntar a mocidade sempre que era necessário para resolver problemas, ou para beber a pinga que se fazia pagar aos rapazes que eram de outra freguesia, e pretendiam casar na nossa. A paga, nestes casos, era mais ou menos de cem escudos. Naquele tempo era bastante, chegava para tudo beber à vontadinha, e comer pão e salada de bacalhau até fartar e sobejar.

Também se gritava "Ó barro!" quando os rapazes atingiam 15 anos (mais ou menos), e tinham de "pagar o vinho". Era, nessa altura, que se dava a transição para homem. Que muitos de nós não chegámos a ter a certeza de o ser...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Recordações (6)


José Queirós fala dos traumas da sua adolescência


Uma bicicleta para dois

Mas nem tudo foram rosas, e eu sofri muitos traumas de infância, muitas angústias que eu interiorizava só para mim e que não contava para os outros. Lembro-me, por exemplo, que quando era bastante criança, o meu crescimento para pessoa adulta era muito lento, muita gente já me dizia que eu não passava de um anão. Afinal cresci, e, hoje, julgo-me um homem bastante normal.

Mas quando era novo, e durante muitos anos, eu vivi com medo obsessivo de morrer tuberculoso. Era algo que era superior a mim, e que me provocava uma grande angústia. A tuberculose era naquele tempo a doença da moda, que se considerava incurável, e muitos foram os que partiram para sempre, alguns que eu conheci e deixaram saudades.

Os que ficámos foi para viver uma vida pouco vivida, às vezes experimentando o aguilhão da fome. Não raras vezes as nossas mães chegavam a esperar que a galinha pusesse o ovo para matar a fome aos filhos. Mas mesmo assim lá nos criámos, crescemos e, hoje, somos pessoas normais. S. Pedro do Rio Seco era uma aldeia com muita vitalidade, que naquele tempo era muito habitada, havia mais de seiscentas pessoas. Alguns que emigravam era para a Argentina e Brasil, e mais tarde para África e, por último, para a Europa. Muito se transformaram as coisas nesta geração!

Não havia transportes como hoje há. Nós tínhamos uma bicicleta lá em casa, e recordo-me que aos sábados, já aprendido o ofício, ia eu fazer barbas a uma terra já do concelho do Sabugal chamada Aldeia da Ponte. Acompanhava-me o meu irmão Luís, dez anos mais novo do que eu. Como só tínhamos uma bicicleta para os dois, um de nós usava-a primeiro, e passado um ou dois quilómetros, deixava-a na berma, para ser utilizada pelo outro, que vinha atrás caminhando a pé. Este, por sua vez, fazia o seu percurso, ultrapassava o andante, e voltava a deixar a bicicleta, mais à frente, na berma, para o outro. E íamos assim, alternando, até chegar ao destino, talvez uns 20 quilómetros de distância.

Os transportes motorizados começaram a aparecer mais ou menos pelo ano de 1930, eram sobretudo automóveis de aluguer e camionetas. Antes dessa data os transportes faziam-se em carros puxados por machos e cavalos, e outras deslocações era a pé, às vezes fazíamos, mais ou menos, 50 quilómetros por dia. Mas eu sei como isso é árduo, custa bastante, e os pés chegam a inchar ao ponto de não caberem nos sapatos!

(contínua)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Recordações (5)

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Trabalhando para ganhar a vida

Mal deixei a escola, logo iniciei uma vida nova. Comecei a sentir a grande responsabilidade de ter de ganhar dinheiro para me vestir e calçar, porque os meus pais não o tinham para mo dar. Comecei então a trabalhar para outros, e a ganhar "o jornal" ou "jeira" que correspondia a um dia de trabalho, e que ia do nascer do sol até ao pôr-do-sol. E o que se ganhava era, mais ou menos, dez escudos por dia.

Havia quem conseguisse dinheiro de outra maneira, tirando aos pais uns quilos de centeio para vender, mas eu nunca fiz tal cena. Era assim, muito dura, a vida naqueles tempos: trabalhava-se muito e tinha-se pouco, trabalhava-se sem horário, e sem férias. E, mesmo assim, ainda era por favor que se conseguia trabalho daquelas pessoas que tinham hortas e vinhas para amanhar. Para ceifar, tão urgente e necessária era a actividade, já não era assim. Havia trabalho para qualquer um que aparecesse, mesmo que ceifasse mal. Sob o calor abrasador de Junho e de Julho, dobrado sobre a foice, a ceifa, era a mais dura das fainas do campo, e ainda hoje só de me lembrar disso sinto calafrios na espinha.

Mas nem tudo era desagradável, apesar de tantos sacrifícios no trabalho ainda se cantava, com aquelas vozes tão sadias, que toda gente ouvia com atenção esses cantores. E havia o convívio, os dichotes picantes, atirados às raparigas, tudo na brincadeira, sem maldade. E, sobretudo, tínhamos sempre a esperança de que melhores dias haviam de chegar. Olhávamos para a estrada do carril, onde de vez em quando já passava um automóvel, e sonhávamos com a África, com a Argentina e com o Brasil.

Tudo acabou hoje porque os tais trabalhos do campo, mondar, sachar, ceifar, já não se fazem; todo aquele duro labutar acabou para a mocidade. Com tanta máquina e com as químicas, hoje, colhe-se mais, em menos terreno, e com menos trabalho.

Eu, da minha parte, tirei bem a conclusão de quanto custam os trabalhos do campo. Foi, talvez, por isso que quis aprender um ofício de barbeiro, e lá consegui aprendê-lo. Mas nem tudo eram rosas, havia de tudo um pouco, mas sempre ganhava mais algum, e com menos sacrifícios do que a trabalhar no campo.

continua

terça-feira, 11 de maio de 2010

Recordações (4)

José Queirós fala da sua ida à escola

Por volta dos sete anos, a minha mãe levou-me à escola pela primeira vez. Lembro-me que fui bem recebido pelo professor, mas isso não apaziguou o medo que levava apertadinho no coração. Eu já sabia que os professores batiam muito nos alunos, era sobretudo à base de reguadas nas mãos. E eu não escapei a esses castigos, mas confesso que não terei sido dos mais atingidos.

Gostávamos, claro, da brincadeira, e, por isso, o tempo passava mais alegremente no recreio do que na sala de aula. Como não tínhamos relógio, não estávamos a horas certas na escola. Quando isso acontecia, o professor colocava-se atrás da porta de entrada, e com uma verga de marmeleiro ia castigando todos os que não tinham chegado à hora certa.

Mas havia outros castigos: quando não sabíamos as lições ficávamos retidos na hora do recreio, que era das 12 horas às 14, ou seja na hora do almoço. E com esse castigo não se almoçava o tal pão e marmelo, ou o pão e uma sardinha, ou uma tigela de caldo.

Recordo-me perfeitamente de fazer o exame da 4ª. Classe. Éramos seis rapazes, e todos soubemos responder muito bem às perguntas da mesa do júri.

Feito o exame deixava-se a escola, e lá voltávamos nós a andar descalços e a saborear as férias de verão, procurando os ninhos dos pássaros, indo nadar para a ribeira, e ajudando os mais velhos nas fainas agrícolas.

Mas quando, depois de feito o exame da 4ª classe, a escola reabriu em Outubro, eu já não voltei. Estava tudo cumprido a respeito de instrução, mas fiquei com muitas saudades da escola, e com um grande vazio dentro de mim.

E assim nos criámos, mas nem todos, que alguns que eu conheci não tiveram essa sorte, como foi o caso do Davide, que eu tive ocasião de o ver o fechar os olhos para sempre.

contínua

domingo, 9 de maio de 2010

Recordações(3)

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José Queirós continua a falar-nos do seu tempo de menino

As nossas armas de brincar eram os “trabucos”, feitos de pau de sabugueiro que íamos cortar atrás dos quintais. Extraíamos o miolo do pau e ficava um canudo oco. As nossas balas eram buchas feitas de linho. Soprando, a arma atirava a alguns metros de longe, e, assim, metíamos medo uns aos outros.

Fazer um pião de um pau de carrasqueira, ou cortar um pau de giesta e aguçá-lo dos dois lados para fazer a xona para os jogos, ou fazer os assobios de cana e as relas na quaresma, ou fazer um "picachão", tudo era fruto da nossa habilidade, pois não havia brinquedos a vender. O canivete era, para nós, a ambicionada ferramenta, mas custava dinheiro, e nem sempre se conseguia. E quando se achava algum, como aconteceu comigo certa vez na Fonte Robre, era uma grande alegria.

A minha irmã, Maria Augusta, morreu com 14 anos. Tenho uma vaga memória desses dias, mas acredito que a minha mãe deve ter sofrido muito. Naquele tempo parece que a morte era uma coisa mais natural, convivia-se mais de perto com ela. Morria-se em casa, aceitava-se o facto como um desígnio da Providência.

Naquele tempo, a pouca assistência médica, a pouca higiene, a má alimentação, tudo contribuía para apressar o fim. Eu lá escapei, mas também me lembro de ter sido visto pelo médico, deitado ao canto da sala, do lado direito, numas mantas estendidas. Eram as tais febres intestinais do tempo estival. E com uma doença denominada pneumónica, em 1918, ainda me lembro de morrer tanta gente, famílias quase completas, tinha eu na altura seis anos.

Naquele tempo, no Verão, sobretudo no mês de Agosto, era uma "limpeza". Até se dizia quando morria um anjinho: "Coitadinho, agostou-se". Recordo-me de ver morrer o Davide: pediu água à mãe dele, e foi a última que bebeu.

E, com uma diferença de 17 anos do António e uma diferença de 10 do José, nascia o nosso irmão Luís . Isto aconteceu depois de o nosso pai ter vindo da Argentina a última vez. A minha mãe tinha mais de 45 anos, e na aldeia toda a gente ficou espantada com o nascimento deste filho serôdio.

continua

segunda-feira, 26 de abril de 2010

recordações(2)

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José Queirós continua a evocar a sua infância, em S. Pedro do Rio Sêco

Naquele tempo não havia dinheiro para comprar nada, nem peixe, carnes ou frutas, comia-se o que produziam os campos. Se o ano vinha bom havia que economizar, mas se o ano era mau alguns perdiam a vergonha e mendigavam, e outros até roubavam. Muitos que eu conheço lá se criaram deste modo, e agora suspeito que já não se lembram. Porque agora tudo é diferente.

A ementa diária era, quase sempre, um caldo feito de batatas, cebola e couve, acompanhado de pão centeio muito escuro. Recordo-me de comer este caldo numa tigela, feita de um barro espanhol muito avermelhado, a que nós chamávamos o "caçoilo".

Algumas vezes fritava-se um pouco de toucinho de porco a que chamávamos chicharros. Esmagávamos as batatas cozidas na banha derretida do toucinho, e isso já era considerado um grande petisco. No verão, com umas caixas em cima de um burro, vinha, de vez em quando, um comerciante de Vilar Formoso, vender sardinhas. A nossa mãe comprava duas sardinhas as quais, a dividir por quatro, meia sardinha para cada um, era o que nos calhava nesse dia. Um ovo estrelado comia-se raramente; na primavera, quando as galinhas punham mais, ia-se vender os ovos no mercado do dia 8, em Almeida. Frutas havia no verão com fartura: figos, abrunhos, maçãs e peras. Havia uns abrunhos selvagens a que chamávamos “cagoiços” por provocarem frequentes diarreias. Bananas, vi-as eu pela primeira vez, já adulto, em Lisboa, e laranjas eram uma raridade.
Na mercearia da Senhora Laura, no Largo do meio-do-povo, comprava-se algum açúcar, o café de cevada e pouco mais.

E não desprezávamos os frutos e as ervas silvestres : as bolotas de azinheira, assadas, eram bem boas ( que a ti Luzia trazia de Espanha à espera de receber, em troca, um punhado de batatas), comiam-se as azedas que cresciam nos prados, e as meruges nos regatos. Havia as amoras das silveiras das quais guardo uma indelével recordação: foi uma vez que eu subi num muro de pedras soltas para as colher, e, qual a minha surpresa, o muro caiu, e eu sobre ele. As pedras marcaram-me para sempre o rosto com uma cicatriz. Nunca mais me esqueci do local, foi na Caleja do Ribeiro, e às vezes ainda me revejo a repor as pedras, e reparo numa delas que era muito arredondada, e julgo que foi essa a que me marcou.

(contínua)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Recordações (1)

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José Queirós, em 1983, começou a escrever as suas memórias. A Patricia oferecera-lhe um caderno onde ele começou a tomar notas, de uma forma simples e até algo desorganizada. Já depois da sua morte, vim eu a encontrar, entre os seus papéis, um maço de folhas, onde ele tinha organizado essas notas de uma forma mais finalizada, embora ainda com lacunas. São esses escritos que hoje se começam a publicar no blogue.


Guarda, abril 1986

Pediram-me para escrever alguma coisa sobre o passado, contar a história da minha vida. E foi para isso que a minha neta Patrícia me deu este caderno de folhas brancas. E eu fixo o olhar nestas folhas que me pedem angustiadamente para que nelas escreva qualquer coisa.

Mas escrever é sempre difícil para quem não sabe. Porque escrever é falar para nós, mas é também falar para os outros. Já tantas vezes aqui cheguei com o lápis afiado, e as palavras ficam presas nele, não querem sair, as ideias ficam coladas umas às outras, e, outras vezes, parece que querem sair todas ao mesmo tempo.

Da névoa do tempo começam a surgir vagamente algumas formas. Nas recordações deste tempo que confronto com os dias de hoje, vejo como tudo era o diferente. Aquele mundo da minha infância era o mundo velho: era diferente a maneira de comer e a maneira de morar nas casas, vivíamos com muito poucas comodidades.

Recuo aos tempos da minha meninice e vejo-me, aí pelos meus 6 ou 7 anos, num palheiro com os meus irmãos e a minha mãe. Quando se entrava, na parede, em frente do lado esquerdo, acendia-se o lume, e do lado direito estava uma cama com uma colcha vermelha de fabrico artesanal. Vivíamos nós neste palheiro porque a nossa casa, que ficava mesmo ao lado, estava arrendada para servir de posto da Guarda Fiscal. A renda era de nove mil reis, dinheiro que nos ajudava a viver. Ainda me lembro de ver os oficiais da Guarda que vinham a rondar os soldados, montados nos seus cavalos.

Mas os nove mil reis eram um gasto que a Guarda não queria, ou não podia, suportar; ou por que havia inveja daquele dinheiro, e logo se construiu uma casa, muito à pressa, para servir de posto da Guarda Fiscal. E lá voltámos nós à nossa casa. Por essa altura o meu pai, Francisco, estava emigrado em Buenos Aires na Argentina, onde já tinha ido pela segunda vez. Nós éramos três irmãos: o mais velho, o António, a Maria Augusta e eu.

A nossa mãe, recordo-me que trabalhou muito para nos criar; tinha que trabalhar para os outros, para que os outros, em troca, lhe lavrassem as terras. Sachar, mondar, semear tudo isso era com ela. Recordo-me que uma vez me levou para o Malavado, e nos pontões do rio Seco caí para a água, e a minha mãe tirou-me a fatiota e embrulhou-me com o avental. Algumas vezes quando ia trabalhar para o campo, deixava-me com a avó Margarida que ainda conheci, alta e magra.
(Contínua)

José Queirós